Por que queremos sair do Brasil? 

Desde a adolescência, sempre quis morar no exterior. Fazia planos para ir após o término da faculdade, mas então encontrei a tampa da minha panela e tudo mudou. No ano passado voltei a pensar nisso e após trabalhar por dois meses com uma brasileira que mora na França e ouvir diariamente suas experiências de vida em um país de primeiro mundo, senti voltar a vontade de arrumar minhas malinhas e também ir embora daqui. 

Na ocasião, comecei a vascullhar na internet para ver se encontrava alguma alternativa que se encaixasse na minha realidade e do Dinho. Foi quando descobri o processo de imigração do Canadá. Passei uma semana lendo tudo o que encontrava a esse respeito – sites oficiais, blogs de quem ia e quem já estava lá e um mailing list de brasileiros sobre o assunto. Fiquei encantada porque para mim era uma luz no fim do túnel. Eu nunca acreditei no Brasil e não tenho mais esperanças de quem um dia esse país vai mudar ou melhorar. Só tenho visto piorar. E tenho muito medo de criar meus filhos aqui.

O primeiro obstáculo da história seria convencer o Dinho. Ele achou legal o processo, foi comigo na palestra de Imigração do Quebec, mas me confessou que não sentia vontade morar em outro país. Pelo menos não naquele momento. Então me dispus a convencê-lo, afinal o processo seria longo e daria tempo para nos acostumarmos com a idéia. Dividia com ele tudo o que eu descobria sobre o Canadá, suas cidades e o processo. Minha intenção era fazer um dossiê, mas só fiz 6 slides com os motivos pelos quais deveríamos sair do Brasil. Não precisei fazer mais do que isso. Ele se convenceu. Seguem os motivos. Eles são os nossos motivos, então são bem pessoais. Eu, por exemplo, sou neurótica de medo da violência. Talvez por isso nem todos concordem com a intensidade das nossas razões. 

]       Medo diário da violência na cidade.

     ¨       Histórico de vários crimes contra familiares e amigos. Inclusive nós dois também já fomos vítimas da violência.

     ¨       Andar nas ruas e ter medo da própria sombra, absurdamente ter medo de crianças de rua, sentir frio na barriga a cada vez que alguém estranho se aproxima, ter medo até de comprar carro para não ser assaltado no farol.

     ¨       Estamos cansados de ver e ler notícias sobre violência e tragédias. É uma extrema falta de respeito pela vida. O pânico vivido com os ataques do PCC em 2006 foram a gota d’água.

     ¨       Saber que no Brasil a Justiça não funciona e beneficia o bandido e os corruptos.

     ¨       Não ter perspectivas de melhora.

]       Um futuro melhor

     ¨       Chances de oferecer um futuro melhor aos nossos filhos e até mesmo oportunidades aos nossos afilhados quando crescerem.

     ¨       Possibilidade de voltarmos a estudar, aprender francês e aperfeiçoar o inglês e até mesmo mudar de profissão.

     ¨       Ter qualidade de vida.

]       Viver em um país que funcione:

     ¨       Trânsito que não seja caótico (é claro que vai depender da cidade).

     ¨       Transporte público eficiente e que não pare em dia de chuva.

     ¨       Bons sistemas de educação e saúde.

     ¨       Custo de vida e educação acessíveis.

     ¨       Salários mais dignos e compatíveis com o custo de vida.

     ¨       Sistema Judiciário que funcione e segurança nas ruas.

     ¨       Economia estável.

     ¨       País politica, economica e socialmente consciente e com uma política aberta de imigração.

     ¨       Respeito pelo cidadão.

]       Vivenciar outra cultura e estilo de vida. Conviver com o multiculturalismo dos imigrantes e com os novos aprendizados e experiências.

]       Desafio de recomeçar a vida em outro país com melhores perspectivas. 

Há também várias pequenas coisinhas que nos decepcionam neste país como a mania do brasileiro de querer tirar vantagem de tudo, o famoso “jeitinho brasileiro” que, na minha opinião, nada mais é do que mera corrupção mas que ninguém enxerga assim porque é um comportamento incutido nas pessoas desde crianças. Também abomino coisas erradas como a TV “a gato”. Esse é só um exemplo, mas é incrível como as pessoas acham bonito fazer isso. Outra coisa que não aceito é ter que pagar para um “flanelinha” olhar seu carro para que ele não o danifique. É o fim do mundo ter que dar dinheiro para um vagabundo (que não quer trabalhar) não riscar seu carro. Fico indignada! 

O conjunto de todos estes fatores impulsiona o nosso sonho de ir em busca de uma vida melhor. Li em muitos blogs opiniões com as quais eu concordava, bem parecidas com as minhas e do Dinho. Infelizmente, porém, uma andorinha não faz verão. Muitos podem até dizer que é covardia fugir da bagunça e não tentar ajeitá-la. Sorry! Discursos ideológicos não me comovem. Vou buscar o que é melhor para mim e minha família.  

Há um texto do João Ubaldo Ribeiro no blog Paulistanos Numa Fria que fala exatamente deste comportamento do brasileiro. O texto chama-se “Precisa-se de matéria-prima para construir um país”. Leia  aqui. 

Inspirei-me na coragem de todos os que já imigraram e os que ainda estão no processo. Ainda temos um caminho um tanto longo até chegarmos lá, mas também vamos tentar reconstruir nossas vidas na Terra do Maple.